
No processo, Luiz apresentou fotos que comprovam suas características físicas ao longo da vida (Foto: Arquivo Pessoal)
Com o início do ano letivo se aproximando, as políticas afirmativas que visam inserir a população sul-mato-grossense na vida acadêmica voltam à tona. Luiz Gustavo Borges, de 18 anos, por exemplo, enfrentou um longo processo – que passou do âmbito universitário ao federal – na tentativa de ocupar uma vaga de cotas raciais.
Em 2025, o jovem que se autodeclara pardo teve sua aprovação em 2° lugar no curso de Educação Física por meio da modalidade no vestibular da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A banca avaliadora, contudo, considerou que suas características físicas ‘não se enquadravam’ nas determinações.
A desclassificação inicial ocorreu pouco antes do começo do ano letivo. Desde então, Luiz recorreu e passou por outras três bancas de heteroidentificação, todas negadas.
“As duas primeiras foram negadas. A terceira foi presencial e, nela, havia inclusive uma pessoa branca na comissão – algo que sempre ouvi não ser adequado em bancas raciais. Ainda assim, o resultado foi novamente negativo”, relata.
‘Pele clara, lábios rosados e cabelo liso’, apontou o parecer. Conforme o jovem, suas características físicas – que contribuíram para que ele fosse reconhecido socialmente como pardo durante toda a vida – resulta de sua origem miscigenada e indígena.
Ação judicial
Após os indeferimentos sucessivos, Luiz ingressou com uma ação judicial junto ao TRF3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região). No processo, o jovem destaca que apresentou fotos da infância e outros registros para tentar provar algo que, para ele, sempre foi evidente: sua identidade racial.
Durante meses, o campo-grandense aguardou o andamento do caso com a vida acadêmica suspensa, até se surpreender com o resultado que, mais uma vez, não foi favorável. “Sou pobre e estudei a vida toda em escola pública para ver os meus direitos colocados no lixo. Meus documentos falam que sou pardo. Eu tenho a autodeclaração”, relata.


Desabafo nas redes
Na última segunda-feira (26), Luiz recorreu às redes sociais para desabafar sobre o caso, incluindo a disputa judicial. ‘Fui excluído do curso sob acusação de “falsificação de cota racial”, com a alegação de que eu não seria pardo chegando, inclusive, a me classificar como branco’, relata em seu perfil.
Perante os desabafos, o jovem comenta que recebeu mensagens de pessoas brancas dizendo que passaram no mesmo ano e na mesma cota, e receberam aprovação pela banca que o reprovou.
‘Deslegitimado’
Todos os processos enfrentados por Luiz decorrem de um motivo maior: sua vontade de estudar. Ainda na esperança de ingressar na faculdade, no último ano ele realizou os vestibulares na modalidade de ampla concorrência, já traumatizado por ter sua raça questionada tantas vezes.
“Vou esperar os resultados das universidades e das bolsas. Não coloquei cota, pois fiquei com um trauma desse caso. Isso mexeu muito comigo, me senti deslegitimado”. A equipe de reportagem buscou a UFMS para solicitar um posicionamento sobre o caso, mas a instituição respondeu apenas que não comenta sobre processos judiciais. Midiamax






