‘Não sou um monstro descontrolado, minha vida foi destruída’ diz PRF acusado de matar empresário em briga de trânsito em MS

Motorista de caminhonete foi morto depois de briga no trânsito — Foto: Marcos Ribeiro/TV Morena

Motorista de caminhonete foi morto depois de briga no trânsito — Foto: Marcos Ribeiro/TV Morena

Na madrugada de 31 de dezembro de 2016, dois veículos cruzaram-se na avenida Ernesto Geisel, centro de Campo Grande (MS). Em um deles estava o policial rodoviário federal Ricardo Hyiun Su Moon, que teria sido fechado em um cruzamento por uma caminhonete dirigida pelo empresário Adriano Correia do Nascimento, acompanhado de 2 pessoas. De uma questão de trânsito, a cena transformou-se em uma tragédia que mudou a vida de duas famílias.

De acordo com a investigação, após a fechada que quase resultou em um acidente, Ricardo parou seu carro em frente à caminhonete e desceu. Ele alega que Adriano estava embriagado e que o fez com o intuito de pará-lo. Ali começou uma discussão. Segundo a acusação, Adriano queria ir embora com os outros 2 ocupantes do carro. A defesa diz que Ricardo não queria permitir porque o motorista estava alterado e não tinha condições de dirigir.

 Segundo o Ministério Público, a discussão terminou com 11 tiros disparados por Moon com a pistola automática dele. Dois disparos atingiram Adriano, que morreu no local. Um tiro acertou a perna de Vinícius Cauã Ortiz, na época com 17 anos, que estava no banco de trás.

Em depoimento, o acusado disse que disparou porque a caminhonete teria avançado sobre ele. Agnaldo Spinosa da Silva, de 51 anos, que estava no banco da frente, disse que o veículo teria avançado sobre o policial quando Adriano foi atingido e perdeu o controle.

A caminhonete, que tinha câmbio automático, bateu em um poste a alguns metros do local.

Empresário foi morto a tiros em briga de trânsito com policial — Foto: Reprodução/ TV Morena

Empresário foi morto a tiros em briga de trânsito com policial — Foto: Reprodução/ TV Morena

“Tudo que eu fiz, a abordagem, tudo, foi de acordo com a lei. Eu estava tentando impedir um homem embriagado de causar uma acidente e tirar a vida de outra pessoa.”

O advogado de Moon, Rene Siufi, alega legítima defesa. Ele afirma que após a discussão, Adriano teria acelerado com a caminhonete quando o PRF posicionou-se um pouco à frente do veículo para anotar a placa. Neste momento, Moon disse ter dado 2 passos para trás e atirado “por instinto”, atingindo Adriano.

Perícia identifica trajetória de tiros de PRF em caminhonete de empresário em MS — Foto: Paulo Yafusso/TV Morena

Perícia identifica trajetória de tiros de PRF em caminhonete de empresário em MS — Foto: Paulo Yafusso/TV Morena

Segundo Siufi, o PRF ligou para a Polícia Militar pedindo reforços e comunicando que estava no local com um motorista embriagado. A gravação desta ligação é uma das provas que constam nos autos.

Para o promotor do Ministério Público, José Arturo Bobadilla Garcia, que encaminhou o relatório para a Justiça, a tese de legítima defesa não se aplica ao caso. Para o MP, trata-se de homicídio qualificado com recurso que dificultou a defesa da vítima, e duas tentativas do mesmo crime.

“O fato de ter descarregado sua arma matando uma pessoa e ferindo outras 2, no trânsito, mostra que em hipótese alguma ele estaria agindo em legítima defesa. Um policial treinado, para defender-se, poderia ter atirado no pneu, na lataria, para o alto, e não no motorista”, explica o promotor.

Para o MP, o movimento que Adriano teria feito com a caminhonete e o policial interpretou como uma investida contra si, seria a manobra necessária para tirar o veículo de trás do carro de Moon. No relatório entregue à justiça consta ainda que o acusado teria posicionado-se de forma a “impedir que as vítimas se desvencilhasem dos disparos”.

“Ele tem o direito de mentir”

A defesa alega que Moon relatou ter visto o rapaz que estava no banco de trás do carro, abaixar-se para pegar alguma coisa no chão. Quando levantou, ele teria nas mãos um objeto escuro, que o PRF disse pensar tratar-se de uma arma ou algo semelhante.

Adriano era proprietário de um restaurante de comida japonesa. O Ministério público acusou o PRF de fraude processual por ter colocado flambadores no veículo da vítima após a perícia. O advogado de Moon diz que caminhonete ficou parada em um pátio por 3 dias, e que diversas pessoas tiveram acesso ao veículo, inclusive a família da vítima. Foi solicitada perícia no celular dos dois peritos que examinaram o carro, mas nada foi encontrado.

O advogado de defesa Rene Siufi, ao lado de Ricardo Su Moon na audiência que determinou júri popular para o caso. — Foto: Juliene Katayama/G1 MS

O advogado de defesa Rene Siufi, ao lado de Ricardo Su Moon na audiência que determinou júri popular para o caso. — Foto: Juliene Katayama/G1 MS

A calça que o PRF usava no momento do incidente não foi recolhida como prova. — Foto: Jaqueline Naujorks

A calça que o PRF usava no momento do incidente não foi recolhida como prova. — Foto: Jaqueline Naujorks

Álcool, drogas e ansiolítico

Um laudo necroscópico foi juntado ao processo em fevereiro de 2017 apontando que Adriano teria feito uso de ecstasy e álcool, e tomava um ansiolítico que não poderia ser misturado com bebida.

“Juntamos um vídeo em que a vítima e o menino, o menor, começaram a beber 20h30 e terminaram de manhã. Isso prova que Moon estava tentando realmente parar um motorista que oferecia risco no trânsito”, declara o advogado Rene Siufi.

“Se eu quisesse simplesmente matá-lo, não teria ligado para a PM pedindo que viessem contê-lo” declara Moon.

O promotor do Ministério Público, diz não haver dúvidas de que trata-se de homicídio doloso (quando há intenção de matar).

“Ele alega que antes da cena houve uma discussão de trânsito, e neste caso, até acredito que os ânimos estivessem exaltados, mas ele cometeu um homicídio com dolo e de uma maneira que impossibilitou a defesa das vítimas”, declara Bobadilla.

Moon foi preso em flagrante no dia do crime, solto no dia seguinte, e chegou a ter prisão preventiva decretada, ficando em uma cela no Grupo Armado de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (GARRAS), por quase um mês. Hoje aguarda juri popular em liberdade, com medidas cautelares.

“Eu não sou um monstro desequilibrado”

Para Moon, houve um “pré-julgamento” na ocasião do crime. Na época, ele preferiu não se manifestar sobre o caso.

“Eu sou policial, já prendi muito traficante, assaltante de banco, gente que coloca a vida dos outros em perigo, e de repente, sou colocado nessa mesma posição, de bandido. Achei covarde esse pré-julgamento, eu não sou um monstro descontrolado, minha vida foi destruída. A comoção popular foi muito grande.”

Para o Ministério Público, a comoção popular faria diferença no julgamento do PRF:

“Quanto mais o tempo passa, mais o clamor público vai arrefecendo, outras situações surgem, uma série de outros fatos vão acontecendo e o crime vai caindo no esquecimento, isso diminui, sim ,a vontade de condenar”, afirma o promotor Bobadilla.O advogado da família da vítima diz que a demora no julgamento é uma estratégia da defesa de Moon:
“Um recurso sentido estrito, foi negado aqui no Tribunal de Justiça de MS por unanimidade, e enviado ao Superior Tribunal de Justiça. Essa burocracia só deve procrastinar o julgamento, já que o processo está lá (no TJ) há um ano e até agora nada foi feito”, declara Irajá.

O Ministério Público defendeu a pronúncia de Moon para júri popular. De acordo com o promotor, “O processo ainda não ‘desceu’ do Tribunal, até o momento não se tem uma definição se ele vai ser julgado ou absolvido em virtude das teses da defesa”.

O processo está no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul desde o dia 18 de outubro de 2017. A última atualização no sistema do TJ foi feita às 14h21 minutos dessa data: “Remetidos os Autos para o Tribunal de Justiça”. Segundo Rene Siufi, que defende Moon, há um pedido feito ao Supremo Tribunal Federal para decidir se o crime será julgado pela justiça comum ou federal.

“Não saí de casa para matar ninguém”

Ricardo vive em regime de restrição de horário, só pode sair de casa das 6h até 22h. Foi proibido de portar arma de fogo e cumpre suas funções no setor administratio da PRF.

“Minha família foi destruída, estou em processo de separação porque ninguém aguenta a minha rotina. Não posso sair de casa, não tenho vida social, não pude sequer acompanhar minha namorada no hospital até meia-noite, ou pegar ficha na UPA (Unidade de de Pronto Atendimento) de madrugada para consultar um dentista”, relata.

Ricardo Su Moon mostra seus certificados: "Sempre estudei para progredir, não colocaria isso tudo fora" — Foto: Graziela Rezende/G1MS

Ricardo Su Moon mostra seus certificados: “Sempre estudei para progredir, não colocaria isso tudo fora” — Foto: Graziela Rezende/G1MSNo apartamento de 45 metros quadrados em que vive, Moon espalha no sofá os certificados do mestrado em engenharia mecânica feito fora do Brasil, cursos de idiomas e condecorações. Quando passou na prova da PRF, foi aprovado em outros 7 concursos.

 

“Sempre estudei para progredir, e de repente, isso tudo acabou, não serviu para nada. Você acha que eu colocaria uma vida de dedicação, tudo isso fora por uma briga de trânsito? Um acesso de raiva qualquer? Minha vida foi destruída.”

Moon declara que, mesmo que seja absolvido, seu nome sempre estará vinculado ao crime:

“Eu nunca quis tirar a vida do Adriano, não queria que ele tivesse morrido. Queria que ele tivesse colaborado, a PM chegasse, autuasse, ele fosse responsabilizado pela imprudência e ‘tocasse a vida’ ,e eu seguiria para o meu trabalho. Não saí de casa para matar ninguém”.

Hoje ele faz acompanhamento psicológico, mas não toma medicação. Moon não vê a família desde o incidente, e não tem planos para isso.

“Meu pai me ajudou a conquistar tudo isso e eu tive que pedir a ele para fingir que não me conhecia para não ser linchado nas redes sociais. Todas as pessoas que me defenderam foram massacradas.”

“O que eu mais prezo é a minha honra e, se eu morrer hoje, ao invés do cara estudioso, vão lembrar apenas do policial assassino”, finaliza. G1
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